Você,
como legítimo brasileiro, é um homem cordial e isto está em suas entranhas. O
historiador Sérgio Buarque de Hollanda já caracterizava, em 1938, no seu livro
Raízes do Brasil, nosso jeito de ser desde quando nos entendemos por brasileiros.
Ser um homem cordial, na visão dele, significa ser
movido pela emoção. E foi exatamente esse fator que decidiu o clássico Atlético
e Cruzeiro, da primeira fase, do “badalado” Campeonato Mineiro de 2012.
O
jogo trazia alta carga emotiva devido à goleada de 6 a 1, aplicada pelo
Cruzeiro no clássico do ano passado, pela última rodada do Brasileirão. Isso
fez com que o Galo começasse a partida a mil por hora. A Raposa não encontrou
formas de deter o fulminante ataque alvinegro no primeiro tempo. Em seguida, a
equipe celeste foi quem tomou as dores e se viu na obrigação de pressionar o
rival na segunda etapa. Por fim, tudo igual, 2 a 2, mas a mania de reclamar da
arbitragem e o fator emoção, mais uma vez, caracterizou o clássico mineiro.
Porém, em vez de fazer uma incursão tática ao que todos já viram, que tal
analisar o porquê de tanto chororô?
Para
início de conversa, é necessário relembrar que a gênese da sociedade brasileira
está diretamente ligada aos portugueses. Ao traçarmos um paralelo entre nossos
colonizadores e os espanhóis, que colonizaram nossos vizinhos, percebemos porque carregamos a “preguiça”
como rótulo. A forma racional de pensar os espaços faz do espanhol um povo
racionalmente melhor organizado, desde os tempos de imperialismo avassalador das
duas potências, enquanto os portugueses permeavam suas cidades com edificações irregulares,
demonstrando sinais de falta de capricho.
Somos
herdeiros desse comportamento “pelos cocos” dos lusitanos. Sergio Buarque de
Hollanda, em Raízes do Brasil, apoiou-se no filósofo alemão Webber para traçar
o perfil do brasileiro. Entre os produtos desse vasto estudo, foi constatado que
somos cordiais, mas não no sentido de ser calmos. O termo refere-se a um tipo
de pessoa que tem dificuldade de diferenciar o público do privado - vide o alto
índice de corrupção em Brasília -, além de encontrar dificuldades para seguir
as burocráticas relações frias estabelecidas com o Estado. Há também de
acrescentarmos a isso uma pitada de “pimenta”, ou seja, emoção regendo a tomada
de decisões. Exemplo disso é o excesso de diminutivos que usamos nas palavras para criar afinidade e dar aquele “jeitinho” de resolver um problema. No
futebol podemos associar esse comportamento àquela tradicional conversa dos
jogadores com o árbitro durante todo o
jogo, pedindo cartão ou reclamando, tendo em vista que, na maioria das vezes, a decisão do juiz é irreversível.
Todo
esse caldeirão de emoções, criados involuntariamente por características que
fazem de nós legítimos brasileiros, é nitidamente percebida em jogos de alta
tensão. A arbitragem entra pressionada e, por ser um duelo nervoso, a
possibilidade de uma expulsão é percebida de imediato no início das partidas. E não fica restrito apenas ao apito, acompanharemos ainda a eterna provocação entre dirigentes que vai muito além de qualquer competição. Seja no Oiapoque ou Chuí, todo dérbi conta com aquilo que inconscientemente
trazemos do berço: nervos à flor da pele.
Defeitos
de personalidade à parte, lembremos que a emoção é o vento que move o moinho do
futebol. Por que todo clássico é nervoso? Porque nossa personalidade reflete o
que acontece lá dentro das quatro linhas.


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