domingo, 8 de abril de 2012

Por que todo clássico é nervoso?


Você, como legítimo brasileiro, é um homem cordial e isto está em suas entranhas. O historiador Sérgio Buarque de Hollanda já caracterizava, em 1938, no seu livro Raízes do Brasil, nosso jeito de ser desde quando nos entendemos por brasileiros. Ser um homem cordial, na visão dele, significa ser movido pela emoção. E foi exatamente esse fator que decidiu o clássico Atlético e Cruzeiro, da primeira fase, do “badalado” Campeonato Mineiro de 2012.
O jogo trazia alta carga emotiva devido à goleada de 6 a 1, aplicada pelo Cruzeiro no clássico do ano passado, pela última rodada do Brasileirão. Isso fez com que o Galo começasse a partida a mil por hora. A Raposa não encontrou formas de deter o fulminante ataque alvinegro no primeiro tempo. Em seguida, a equipe celeste foi quem tomou as dores e se viu na obrigação de pressionar o rival na segunda etapa. Por fim, tudo igual, 2 a 2, mas a mania de reclamar da arbitragem e o fator emoção, mais uma vez, caracterizou o clássico mineiro. Porém, em vez de fazer uma incursão tática ao que todos já viram, que tal analisar o porquê de tanto chororô?

Para início de conversa, é necessário relembrar que a gênese da sociedade brasileira está diretamente ligada aos portugueses. Ao traçarmos um paralelo entre nossos colonizadores e os espanhóis, que colonizaram nossos vizinhos, percebemos porque carregamos a “preguiça” como rótulo. A forma racional de pensar os espaços faz do espanhol um povo racionalmente melhor organizado, desde os tempos de imperialismo avassalador das duas potências, enquanto os portugueses permeavam suas cidades com edificações irregulares, demonstrando sinais de falta de capricho.

Somos herdeiros desse comportamento “pelos cocos” dos lusitanos. Sergio Buarque de Hollanda, em Raízes do Brasil, apoiou-se no filósofo alemão Webber para traçar o perfil do brasileiro. Entre os produtos desse vasto estudo, foi constatado que somos cordiais, mas não no sentido de ser calmos. O termo refere-se a um tipo de pessoa que tem dificuldade de diferenciar o público do privado - vide o alto índice de corrupção em Brasília -, além de encontrar dificuldades para seguir as burocráticas relações frias estabelecidas com o Estado. Há também de acrescentarmos a isso uma pitada de “pimenta”, ou seja, emoção regendo a tomada de decisões. Exemplo disso é o excesso de diminutivos que usamos nas palavras para criar afinidade e dar aquele “jeitinho” de resolver um problema. No futebol podemos associar esse comportamento àquela tradicional conversa dos jogadores com o árbitro  durante todo o jogo, pedindo cartão ou reclamando, tendo em vista que, na maioria das vezes,  a decisão do juiz é irreversível.

Todo esse caldeirão de emoções, criados involuntariamente por características que fazem de nós legítimos brasileiros, é nitidamente percebida em jogos de alta tensão. A arbitragem entra pressionada e, por ser um duelo nervoso, a possibilidade de uma expulsão é percebida de imediato no início das partidas. E não fica restrito apenas ao apito, acompanharemos ainda a eterna provocação entre dirigentes que vai muito além de qualquer competição. Seja no Oiapoque ou Chuí, todo dérbi conta com aquilo que inconscientemente trazemos do berço: nervos à flor da pele.

Defeitos de personalidade à parte, lembremos que a emoção é o vento que move o moinho do futebol. Por que todo clássico é nervoso? Porque nossa personalidade reflete o que acontece lá dentro das quatro linhas.


Nenhum comentário:

Postar um comentário