quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Você também quer uma medalha?


Perambulando incessantemente pelos sites de esporte – hábito adquirido após trabalhar em assessoria de imprensa de atletas de futebol – vi uma coisa curiosa que me levou a refletir. “Riquelme é nomeado cidadão ilustre de cidade venezuelana: 'Sinto-me agradecido'”. Logo me vem a cabeça: o jogador argentino pelo menos conhece a cidade? O cara só foi lá para jogar bola, ganhando seu polpudo salário para isso. E quem trabalha nas ruas da cidade limpando a sujeira da população, e os professores, e os médicos? Arrisco a dizer que ele está pouco se lixando para aquele lugar.


A partir desse caso, lembrei que nosso polêmico e endinheirado craque em decadência Ronaldinho Gaúcho já foi homenageado algumas vezes também. Meia habilidoso e rodado na Europa, assim como Roman Riquelme, o brasileiro recebeu, no dia 20 de janeiro deste ano, a medalha de honra ao mérito, em Sucre, na Bolívia, das mãos do presidente Evo Morales. Claro que o jogador é bem-sucedido e ainda influencia uma vasta multidão nos países em que passa. Mas acho banalizar a premiação ao entrega-la ao rapaz.


foto: Marcos Samersom
Pasmem! Voltando um pouco no tempo vi que Gaúcho recebeu uma honraria máxima na Academia Brasileira de Letras. Ao ser questionado sobre qual seu livro e autor preferido ele disse: “Não tenho”.  Ele ainda completou, “Vou aproveitar a visita para pedir umas dicas de livro para os acadêmicos”. Isso aconteceu em abril do ano passado, na celebração dos 110 do nascimento de José Lins do Rego.  Na ocasião o jogador recebeu a medalha Machado de Assis.

É indiscutível que a carreira desses atletas foi construída com muito talento e trabalho no esporte. Também fica nítido que são merecedores de reconhecimento no mundo esportivo e até fora dele. Mas, espere aí, neh! Desafio você a encontrar pelo menos três heróis por dia em seu convívio social. Pessoas dignas de receber uma medalha pela vida que levam. Acredito que você não terá dificuldades. Professores entram em greve cobrando melhores condições de trabalho. A educação do país é uma bola fora do governo brasileiro desde os primórdios. Infelizmente, é cultural considerar os educadores uma parte qualquer do proletariado.

Aí você liga sua televisão e vê jogadores que estão em decadência e que nem são mais exemplos para a juventude receberem honrarias. Ronaldinho Gaúcho seria um bom exemplo para seu filho? Nem aqui  e nem em Sucre! Ele não tem obrigação de sê-lo, mas a partir do momento que nossos intelectuais e chefes de Estado os alçam a um patamar elevado, eles ficam com esse dever. 

Prefiro ler as manchetes: “Ronaldinho Gaúcho falta treino e é visto em show de pagode” ou “Riquelme diz que treinador o fez correr como idiota”. Essas são condizentes com o verdadeiro moral desses atletas que foram alçados a um patamar além do que são pelo fato de estarem em um mercado que movimenta cerca de 2% do PIB nacional. Parece que a mania de idolatria exagerada é intrínseca e necessária ao ser humano.

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