Perambulando
incessantemente pelos sites de esporte – hábito adquirido após trabalhar em
assessoria de imprensa de atletas de futebol – vi uma coisa curiosa que me
levou a refletir. “Riquelme é nomeado cidadão ilustre de cidade venezuelana:
'Sinto-me agradecido'”. Logo me vem a cabeça: o jogador argentino pelo menos
conhece a cidade? O cara só foi lá para jogar bola, ganhando seu polpudo
salário para isso. E quem trabalha nas ruas da cidade limpando a sujeira da
população, e os professores, e os médicos? Arrisco a dizer que ele está pouco
se lixando para aquele lugar.
A
partir desse caso, lembrei que nosso polêmico e endinheirado craque em
decadência Ronaldinho Gaúcho já foi homenageado algumas vezes também. Meia
habilidoso e rodado na Europa, assim como Roman Riquelme, o brasileiro recebeu,
no dia 20 de janeiro deste ano, a medalha de honra ao mérito, em Sucre, na
Bolívia, das mãos do presidente Evo Morales. Claro que o jogador é bem-sucedido
e ainda influencia uma vasta multidão nos países em que passa. Mas acho
banalizar a premiação ao entrega-la ao rapaz.
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| foto: Marcos Samersom |
É
indiscutível que a carreira desses atletas foi construída com muito talento e
trabalho no esporte. Também fica nítido que são merecedores de reconhecimento
no mundo esportivo e até fora dele. Mas, espere aí, neh! Desafio você a
encontrar pelo menos três heróis por dia em seu convívio social. Pessoas dignas
de receber uma medalha pela vida que levam. Acredito que você não terá
dificuldades. Professores entram em greve cobrando melhores condições de
trabalho. A educação do país é uma bola fora do governo brasileiro desde os
primórdios. Infelizmente, é cultural considerar os educadores uma parte
qualquer do proletariado.
Aí
você liga sua televisão e vê jogadores que estão em decadência e que nem são
mais exemplos para a juventude receberem honrarias. Ronaldinho Gaúcho seria um
bom exemplo para seu filho? Nem aqui e
nem em Sucre! Ele não tem obrigação de sê-lo, mas a partir do momento que
nossos intelectuais e chefes de Estado os alçam a um patamar elevado, eles
ficam com esse dever.
Prefiro
ler as manchetes: “Ronaldinho Gaúcho falta treino e é visto em show de pagode”
ou “Riquelme diz que treinador o fez correr como idiota”. Essas são condizentes
com o verdadeiro moral desses atletas que foram alçados a um patamar além do
que são pelo fato de estarem em um mercado que movimenta cerca de 2% do PIB
nacional. Parece que a mania de idolatria exagerada é intrínseca e necessária
ao ser humano.

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